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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Torero na 3ª

JOSÉ ROBERTO TORERO

Vendo com os ouvidos

Sucesso que os rádios de todos os tipos fazem em Arapiraca tem motivos variados, inclusive o "vistal"

VIAJADO LEITOR , rodada leitora, depois de andar 2.753 km pelas esburacadas estradas brasileiras, finalmente cheguei a Arapiraca para ver uma das partidas de abertura da Série C do Brasileiro. O jogo era ASA (Associação Sportiva Arapiraquense, para os íntimos) x Petrolina.
Eu poderia falar dos bons acarajés vendidos no estádio, da lama do gramado, do quase milagroso goleiro Genílson, do Petrolina, que defendeu até pênalti, do resultado de 1 a 0 para o time local, dos salários dos jogadores (entre R$ 1.500 e R$ 2.000, não tão ruins quanto eu esperava) ou dos torcedores-ciclistas que assistem ao jogo sobre suas bicicletas. Mas o que mais me impressionou foram os rádios. Muitos torcedores assistiram ao jogo com seus aparelhos grudados ao ouvido. Muitos mesmo. É uma mania local. Mania que já foi comum no Sul e no Sudeste, mas que hoje é exceção na parte de baixo do país.
Vi rádios de todos os tipos pelo estádio Coaracy da Mata Fonseca: pretos, prateados e coloridos, modernos e antigos, pequenos como um celular e grandes como um notebook. Alguns torcedores os escutavam bem colados ao ouvido, outros preferiam deixá-lo um tanto longe e com o volume no máximo. Mas os do lado não se incomodavam. Pegavam carona.
Os motivos para o sucesso do rádio em Arapiraca são variados. A resposta mais comum foi que, como os times mudam muito de jogador hoje em dia, só assim se pode saber o nome de quem está com a bola.
Mas houve outras, várias outras. Antonio Feliciano Sobrinho, 71, tem uma razão vital. Ou melhor, vistal. "É que os meus olhos andam meio ruins, só assim que eu sintonizo quem é quem."
Antonio Barbosa, que gastou R$ 45 num vistoso Motobras, diz que o rádio é bom porque assim ele fica sabendo o que está acontecendo nos outros jogos da rodada.
Cícero da Silva, 44, que está em seu oitavo rádio, escuta-o num tom altíssimo e grita para conversar com os que estão à sua volta. Sua explicação é que o rádio deixa o jogo mais animado, com mais emoção.
Valdir Francisco, 43, já é caso de "audiente fanaticus". É apaixonado por AM desde seu primeiro Motoradio. E mesmo agora, com um moderno aparelho, continua ouvindo rádio das 20h às 24h, todos os dias.
José Cavalcanti, 43, teoriza e diz que há dois tipos de torcedores: o que assiste aos jogos e o que acompanha futebol. Ele se considera do segundo grupo e por isso acha o rádio fundamental. Só assim ele pode acompanhar o entorno do futebol, as opiniões, quem está entrando na partida, quem está saindo, e por quê.
Em seu pequenino Livstar, Cavalcanti também gosta de ouvir entrevistas. "É para ver se os técnicos e os jogadores têm um bom retrato da partida." Porém, curiosamente, na hora daquele longo gooooool dos locutores brasileiros, ele não escuta seu aparelho. "Aí a gente está comemorando, até tira ele do ouvido."
Mas a resposta mais eloquente talvez tenha sido a de um senhor de uns 60 anos que nem quis escutar minha pergunta. Com o radinho colado ao ouvido, ele me disse: "Você me desculpe, mas agora não posso falar, viu? Tenho que escutar o que eu estou vendo".

domingo, 18 de maio de 2008

Torero - Coluna da Folha de São Paulo

JOSÉ ROBERTO TORERO

Ressacas

Times de futebol também sofrem de babalaze; algumas demoram tanto a passar que o jeito é beber para esquecer

BOÊMIA LEITORA, alcoólatra leitor, as ressacas podem ser terríveis. Aposto que vocês sabem disso. Quem nunca teve uma ressaca que atire o primeiro Engov!
Os sintomas variam, mas em geral a cabeça dói tanto que a gente pensa que os neurônios se revoltaram, pegaram martelos e estão quebrando tudo por lá. A boca fica tão seca que não há Amazonas que cure sua sede.
Há uma grande dificuldade de concentração (por exemplo, se você está de ressaca, já deve ter lido esta linha três vezes). E, como esta Folha pode estar sendo lida no café da manhã, nem vou falar em dores de estômago, náuseas e vômitos.
Como todos sabem, há dois tipos de ressacas: as de alegria e as de tristeza. As de alegria, é claro, vêm de comemorações. Geralmente são de champanhe ou cerveja e não duram tanto tempo. Já as de tristeza acontecem porque você teve um mau dia e tentou afogar-se em cachaça, rum ou gim. Estas são mais graves. Algumas demoram tanto a passar que o jeito é beber para esquecer a ressaca. Com os times de futebol dá-se o mesmo. Eles vieram de suas festas estaduais e muitos ainda estão de babalaze.
O Flamengo, por exemplo, perdeu do América do México porque estava curtindo sua alegre ressaca pelo campeonato do Rio de Janeiro. Mas ela foi tão grande que gerou a derrota na Libertadores, que, por sua vez, gerou outra ressaca, desta vez de tristeza. Porém, graças à vitória sobre o Santos B, a dor de cabeça já começa a passar.
A ressaca do Palmeiras também é compreensível. O time não ganhava o Paulista havia mais de uma década e tinha mesmo que comemorar. Mas na próxima rodada já estará livre dos eflúvios etílicos e deve voltar a jogar bem.
Por outro lado, os ressacados-tristes se deram mal. O Goiás, por exemplo, que perdeu a final do Estadual para o Itumbiara (e com duas derrotas), mostrou que ainda não se recuperou completamente.
Tanto que perdeu para o Náutico, que vem de uma ressaca pernambucana. Na próxima semana, o Goiás enfrenta outra equipe com sérios problemas ressacais: o Atlético-MG, que tomou seis doses da cachaça Cruzeiro na final do Mineiro. A ressaca é tanta que, mesmo em casa e contra dez reservas, o Atlético não venceu o Fluminense.
Sinal de que a dor de cabeça ainda vai durar algum tempo.
Mas ressaca mesmo foi a do Ipatinga. Após ser campeão estadual em 2005 e vice da Série B em 2007, foi rebaixado no Mineiro de 2008.
Uma grande decepção. E promete ser longa, pois começou perdendo em casa. Talvez, no final do ano, haja a ressaca do rebaixamento.
Por outro lado, há alguns (dos quais tenho profunda inveja) que resistem às ressacas, como Inter e Cruzeiro. Ganharam seus Estaduais, com goleadas nas finais, e venceram na primeira rodada do Brasileiro. O Cruzeiro, fora de casa.
O Inter, com os reservas.
Estes abençoados são como aquele colega de escritório que, na sala do cafezinho, no dia seguinte à esbórnia de fim de ano, te pergunta. "Não brinca?! Você ficou de ressaca? Engraçado, eu não senti nada."
E depois sai assobiando.
E aí você joga a cafeteira na cabeça dele.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Coluna do Torero na Folha de SP

JOSÉ ROBERTO TORERO

Nada como jogar com as brancas

Tico e Teco estão em plena atividade, bolando fórmulas para os campeonatos, em especial os Estaduais

HÁ MUITO TEMPO eu não via Tico e Teco, dois conhecidos profissionais especializados em fórmulas de campeonatos.
Pensei que ainda estivessem dando palestras na Fifa, mas qual não foi a minha surpresa quando os vi à beira da piscina de um caríssimo hotel em São Paulo.
Tico tomava um daqueles drinques multicores que têm um guarda-chuvinha em cima. Teco bebia um rabo-de-galo. "Fizemos um bom trabalho, não, Tico."
"Dois bons trabalhos, Teco."
"Aquela sua idéia de que os grandes cariocas só poderiam jogar no Maracanã foi uma idéia supimpa!"
"Ora, ora... qualquer gênio faria o mesmo."
"O estranho é que os clubes pequenos nem chiaram."
"Mesmo se chiassem, quem ia escutar? Pequeno é pequeno."
"Essa sua regra corrigiu as coisas, Tico. Há alguns anos, lá no Rio, estava ficando normal os pequenos chegarem às semifinais." "Pois é, acabei com esse problema.
Tanto que só tem clube grande na semifinal da Taça Rio. Chega de Volta Redonda, Madureira, essas coisas..."
"Ah, nada como jogar em casa..."
"Nada como jogar em casa... Falando nisso, Teco, também achei muito boa essa regra que você inventou de todos os jogos dos grandes times do Paulista serem no Morumbi."
"Pois é. Se os campeonatos não tiverem essas doidices, não têm graça."
"Você é impagável!", disse Tico bebendo seu drinque irisado.
"Ora, ninguém é impagável", afirmou Teco bebericando seu rabo-de-galo.
"O estranho é que ninguém reclama. Nem os pequenos, nem Santos, Palmeiras e Corinthians."
"Eles fazem o que a federação manda."
"Aposto que o Palmeiras vai tentar levar o segundo jogo para o Palestra Itália ou para São José do Rio Preto."
"Mas aí a federação vai dizer que é uma questão de segurança, que o mando das semifinais pertence a ela, aquelas coisas..."
"O São Paulo pode ser campeão jogando as quatro no Morumbi."
"Salve o tricolor paulista..."
"...amado clube brasileiro..."
"Ah, nada como jogar em casa..."
"Nada como jogar em casa..."
"Precisamos exportar nossas idéias para os outros Estados. Ainda tem gente que faz partidas importantes na casa do adversário. É muita burrice!"
"Muita! No ano passado, o Paraná perdeu o Campeonato Estadual para o Paranavaí por causa disso."
"Ainda vamos ganhar muito dinheiro com essa idéia, Tico." "Falando em ganhar, topa uma partida de xadrez, Teco?"
"Topo, mas eu jogo com as brancas." "Não, as brancas são minhas."
"São minhas."
"Minhas!"
Quando começou a discussão, eu me afastei discretamente, mas ainda pude ver Teco atirando seu rabo-de-galo em Tico e Tico derramando seu arco-íris na cabeça de Teco.
Nem todo mundo aceita jogar em desvantagem. Pelo menos, não os espertos.

terça-feira, 25 de março de 2008

Coluna do Torero na Folha de SP

Noves fora, 1 a 0

O 1 a 0 é sempre dramático, é tensão, é alívio, é milagre; o 1 a 0 garante 90 minutos de emoção e unhas roídas

O PLACAR de 1 a 0 indica uma partida ruim, aborrecida, chata de se ver, certo?
Errado!
O 1 a 0 é sempre dramático.
O 1 a 0 garante 90 minutos de emoção e unhas roídas. É a vitória por diferença mínima, a vitória que quase não houve, a vitória que ficou ameaçada todo o tempo.
Num 1 a 0, o torcedor mal respira e pouco pisca. O coração está sempre acelerado, seja pela esperança do gol de seu time, seja pelo medo do gol do adversário.
Num 1 a 0, a vitória está sempre por um fio.
Por exemplo, os corintianos, neste domingo, esperaram durante longos 30 minutos até que Dentinho tirasse o zero do placar. Mas depois tiveram que rezar por 3.600 segundos para que o Rio Claro não empatasse.
E isso quase aconteceu no fim do segundo tempo, quando Luciano perdeu um gol na pequena área. 1 a 0 é tensão.
Os são-paulinos sofreram ainda mais.
Depois de 70 minutos, parecia que jamais sairia um gol naquela partida.
E os dois times jogavam tão pobremente que isso parecia o mais justo. Mas então Borges, que havia acabado de entrar, acertou um belo chute e manteve o Tricolor perto do G4.
1 a 0 é alívio.
E os santistas ficaram ainda mais calvos assistindo ao jogo contra o Guará.
Em meio a um lamaçal e com um jogador a mais, o Peixe não conseguia fazer seu gol. A bola cruzava a área, mas nenhuma perna aparecia para empurrá-la para as redes, os chutes eram disparados de longe, mas chegavam mais perto das bandeirinhas de escanteio do que das traves do goleiro. Mas, aos 40min, Marcinho Guerreiro (sim, Marcinho Guerreiro) acertou um chute de fora da área e fez o gol da vitória.
1 a 0 é milagre.
Mas talvez o 1 a 0 mais cruel deste fim de semana tenha acontecido no jogo entre Coritiba e Toledo.
Quem vencesse assumiria a liderança do grupo e estaria a um passo das semifinais. Durante toda a partida, os torcedores prendiam a respiração quando eram atacados e rangiam os dentes quando atacavam. E nada acontecia. Mas uma névoa de fatalidade pairava no ar. Então, no último escanteio do jogo, o zagueiro Cleiton foi para a área e fez o gol. Para o Toledo. Dependendo do lado em que você está, 1 a 0 é tristeza e sofrimento.
Nada, meu caro leitor, nada é mais cruel do que o 1 a 0. Ele não dá descanso ao torcedor, ele exige grandes doses de fé e resignação.
Talvez o 1 a 0 seja o mais emocionante dos placares.
Os 0 a 0 têm a tensão constante, mas não possuem a explosão do gol, não provocam o jorro de emoção causado pela vitória ou pela derrota.
As goleadas satisfazem, mas falta a esse tipo de vitória o medo da derrota, e o sucesso sem a possibilidade do fracasso não é grande coisa.
E há, claro, as vitórias por 4 a 3, ou 5 a 4, mas estas são raras e têm ares de bolero mexicano.
A emoção mesmo é o 1 a 0. Talvez porque esse placar pareça um pouco com a vida, esta curiosa partida que jogamos contra a morte. Uma partida que conseguimos deixar empatada até o último minuto, mas que no fim perderemos por 1 a 0.